Reflexões sobre o ensino remoto de matemática

10 de novembro, 2020 - Por e-docente

Compartilhar

Algumas perguntas têm mobilizado muitos de nós, educadores, nos tempos atuais. Uma questão recorrente: é possível ensinar matemática em um contexto remoto? Se sim, como e o que ensinar?

Nós ainda não temos muitas condições de conceitualizar o que está acontecendo nesse período, porque ainda estamos vivendo essa história. Podemos compartilhar nossas experiências e reflexões.

No início da pandemia, nosso primeiro desafio foi buscar meios para que a escola chegasse até os estudantes. Equipes técnicas das secretarias, gestores escolares e professores se desdobraram, e continuam se desdobrando, na busca dessa aproximação.

Foi preciso repensar a educação. Cada rede ou escola foi trilhando seu caminho, buscando ferramentas disponíveis, considerando a realidade de seu grupo de estudantes. Blocos de atividades impressas, atividades online por meio de plataformas digitais, aulas gravadas, transmissão por rádio, pela tv ou outras mídias sociais, animação com avatares, aulas síncronas quando era possível… Um momento de crise e de muita criatividade.

Por um lado, muitos recursos surgiram e fomos aprendendo a usá-los nas nossas propostas de ensino. Por outro lado, seguimos preocupados com o acesso dos estudantes a esses recursos, com a utilização que fazem deles, com que grau de autonomia, e principalmente com a interação entre estudantes e com o professor.

Leia também: Dicas de atividades para alunos sem acesso à internet.

Como a tecnologia auxilia o processo de ensino

A interação no meio digital é muito diferente do modo como interagimos presencialmente. Em uma aula presencial, para intervir, o professor considera a expressão da criança, um gesto, o movimento da turma, se estão mais ou menos agitados. Os estudantes podem olhar como o colega está resolvendo um problema, compartilhar seu procedimento, apontando algo que fez. Ainda não encontramos substitutos para essas interações. Seguimos buscando.

Nesse momento, cabe a nós, educadores, avaliar como cada um dos recursos que temos disponíveis podem ser usados para potencializar essa interação. Não adianta enviar um bloco enorme de atividades para os estudantes realizarem em casa sem prever alguma forma de retorno dessas atividades para poder acompanhar as aprendizagens dos estudantes.

É preciso considerar quais oportunidades de interação com o conhecimento cada veículo de comunicação e de acesso oferece. Uma aula gravada, por exemplo, não permite interação com o professor ou entre estudantes, mas pode ser uma ótima ferramenta para sistematizar um conceito. Uma atividade impressa pode ser uma boa ferramenta para propor problemas abertos, na qual o estudante possa resolver com autonomia, usando recursos pessoais, mas é preciso prever algum tipo de retorno desses conhecimentos.

Por outro lado, a construção do sentido dos conhecimentos matemáticos não é um desafio apenas no contexto remoto. Sabemos o quanto a matemática é considerada por grande parte dos estudantes como uma disciplina difícil, sem sentido. 

Para que os estudantes construam o sentido dos conhecimentos matemáticos é preciso que trabalhem na escola, de maneira análoga ao que realizam os matemáticos no desenvolvimento do seu trabalho, isto é, que aprendam matemática fazendo matemática, assim como aprendem a falar, falando. 

Leia também: O professor do presente e o ambiente virtual.

E como fazer matemática?

Resolver problemas é uma prática central para o aprendizado da matemática, já que permite aos alunos por em jogo seus conhecimentos e, a partir deles, pensar numa hipótese para encontrar a solução, elaborando com isso estratégias adequadas para a situação apresentada.

O termo problema não é somente um enunciado, uma pergunta. Só há problema se o estudante percebe uma dificuldade: uma determinada situação pode provocar um problema para um estudante, o outro pode conseguir resolver mais facilmente. Entretanto, muitas vezes, o sentido desta prática se perde e os problemas são realizados de forma mecânica, como mero exercitar de um cálculo. Ou, em outras vezes, os professores se queixam de que os alunos não leem os enunciados e usam os números ali apresentados a esmo, sem nenhuma criticidade.

Para resolver problemas é necessário desenvolver as seguintes capacidades:

  • Saber o que está sendo buscado, ser capaz de representar e se apropriar da situação;
  • Ser capaz de se concentrar por tempo suficiente e de se descentrar, mudar seu ponto de vista;
  • Ser capaz de mobilizar conhecimentos anteriores na hora certa;
  • Ser capaz de guardar o caminho de seus ensaios, de organizar, de planejar, de gerenciar as informações disponíveis, sejam elas fornecidas ou quando é necessário para procurá-las ou construí-las;
  • Ousar agir, arriscar, se equivocar;
  • Poder formular, comunicar suas hipóteses, suas certezas e suas estratégias;
  • Ser capaz de controlar o estado de seu procedimento, medir a distância que o separa da solução;
  • Ser capaz de validar, provar etc.

Conclusão

Compartilhar com o grupo sua estratégia de resolução e ajustá-la ou corrigi-la quando isso se faz necessário também é uma ocasião riquíssima para avançar nos conhecimentos matemáticos e ampliar o leque de boas estratégias que cada estudante tem à sua disposição.

O tipo de trabalho realizado na escola e o conjunto de experiências que a criança participa influi fortemente na relação que cada uma constrói com a Matemática, o que inclui o fato de sentir-se ou não capaz de aprendê-la.

Priscila Monteiro

Compartilhar


Deixe seu comentário