O que é consciência fonológica e como ela afeta a alfabetização?

09 de setembro, 2020 - Por e-docente

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Alfabetizar requer o desenvolvimento de competências e habilidades muito antes de saber ler e escrever. As várias informações que a criança recebe no dia a dia, no convívio familiar, no contexto social, nas brincadeiras com as outras crianças, enfim, os conhecimentos que adquire fora da escola, aparentemente desconectados dos espaços escolares, são, no entanto, aprendizados que influenciam o processo de alfabetização.

A aprendizagem da leitura e da escrita depende, em grande parte, da bagagem linguística constituída a partir da linguagem oral. Contudo, aprender a falar ocorre quase que naturalmente, uma aquisição espontânea, desde que a criança tenha preservadas suas condições físicas e cognitivas, sendo estimulada no ambiente em que vive, quando exposta às conversas de seu meio e pela convivência com pessoas que falam.

Já a aprendizagem da leitura e da escrita requer mediação planejada e ensino sistematizado por contemplar convenções socioculturais e competências de elevada complexidade de abstração, que envolvem habilidades metafonológicas, memória operacional fonológica, velocidade de acesso ao léxico e ao vocabulário, bem como atenção aos aspectos da língua (níveis morfológicos, semântico e sintático) e compreensão textual. 

Várias habilidades metalinguísticas se desenvolvem por meio de jogos e brincadeiras. Esses informam o mundo infantil e favorecem a emergência de novas habilidades, ao mesmo tempo em que estimulam a convivência entre as crianças.

Historicamente, a maioria dos países que aperfeiçoaram a alfabetização nas últimas décadas fundamentaram suas políticas públicas nas evidências das ciências cognitivas. Nesse sentido, a proposta da Política Nacional de Alfabetização – PNA (BRASIL, 2019, p.51) dá ênfase no ensino de seis componentes essenciais para a alfabetização, sendo eles: a) consciência fonêmica; b) instrução fônica sistemática; c) fluência em leitura oral; d) desenvolvimento de vocabulário; e) compreensão de textos; e f) produção de escrita. É importante ressaltar que não se trata de alfabetizar na educação infantil, mas de proporcionar as condições mínimas para que a alfabetização possa ocorrer com êxito no 1º ano do ensino fundamental.

Esses componentes passaram a sustentar os bons programas de alfabetização, sendo considerados essenciais no processo de aprendizagem da leitura e da escrita, principalmente, no que tange à compreensão da consciência fonêmica e do princípio alfabético. Para tal, é necessário promover o desenvolvimento da consciência fonológica.

O que é consciência fonológica e quais as habilidades que ela compreende?

A consciência fonológica é uma habilidade metalinguística abrangente, que inclui a identificação e a manipulação intencional de unidades da linguagem oral, tais como palavras, sílabas, aliterações e rimas. À medida que a criança adquire o conhecimento alfabético, isto é, identifica o nome das letras, seus valores fonológicos e suas formas, emerge a consciência fonêmica, a habilidade metalinguística que consiste em conhecer e manipular intencionalmente a menor unidade fonológica da fala, o fonema (ADAMS et al., 2005; CAPOVILLA, A.; CAPOVILLA, F., 2000).

A escrita da Língua Portuguesa é de base alfabética, o que significa o uso de letras (grafemas) para representar os sons (fonemas). A descoberta do fonema é a chave para compreensão do princípio alfabético, isto é, descobrir o fato de que as palavras são formadas por fonemas (sons menores do que a sílaba) e que os fonemas, por sua vez, são representados por grafemas (letras), para aprender a decodificar, ou seja, aprender as relações entre os fonemas e os grafemas que os representam para extrair o som das palavras escritas. 

Todavia, os fonemas são abstrações perceptuais, representações mentais de sequências articulatórias e de seus traços acústicos, e que, para serem percebidos, necessitam do desenvolvimento da consciência fonológica.

 Em resumo, temos que:

  • desenvolver consciência fonológica é ser capaz de perceber os sons típicos da língua – e que são diferentes de sons em geral; 
  • desenvolver consciência fonêmica é a ideia de que as letras representam os sons da língua, os sons que compõem uma palavra. E, para isso, a criança precisa conhecer as letras – seus nomes e suas formas;
  • adquirir o princípio alfabético é compreender que palavras são formadas por diferentes fonemas (sons) e que esses sons são representados por letras (grafemas).

Como já vimos, a consciência fonológica é uma habilidade abrangente que inclui identificar e manipular intencionalmente unidades da linguagem oral, como palavras, sílabas e fonemas, com rimas e aliteração, ou seja, segmentar de modo consciente as palavras em suas menores unidades, em sílabas e em fonemas. Segmentar no nível da sílaba e do fonema compreende desenvolver atividades que envolvam:

NÍVEL DA SÍLABA

  1. Síntese silábica
  2. Análise silábica
  3. Identificação e produção de RIMA
  4. Identificação e produção de ALITERAÇÃO INICIAL
  5. Identificação e produção de ALITERAÇÃO MEDIAL
  6. Manipulação silábica
  7. Transposição silábica
  8. Combinação silábica

NÍVEL DO FONEMA

  1. Síntese fonêmica
  2. Análise fonêmica
  3. Identificação e produção de palavras com fonema INICIAL
  4. Identificação da posição FINAL e MEDIAL
  5. Manipulação fonêmica (adição e subtração)
  6. Transposição e Combinação fonêmica

 

 

 

 

 

A relação entre a consciência fonológica, a leitura e a escrita vem sendo pesquisada e documentada há mais de três décadas. É consenso na literatura que, em sistemas alfabéticos, a alfabetização implica uma reflexão deliberada da fala, a fim de que se torne objeto de sua atenção consciente, possibilitando o desenvolvimento da consciência metalinguística.

Como trabalhar a consciência fonológica?

As atividades de consciência fonológica associadas à correspondência grafema-fonema podem ser estimuladas nas crianças em vias de alfabetização, promovendo uma intervenção preventiva, bem como nas crianças que já apresentam dificuldades no processo de aquisição da leitura e escrita, como intervenção terapêutica. Tais atividades podem ser realizadas tanto em ambiente de sala de aula, por professores e pedagogos, quanto por fonoaudiólogos e profissionais ligados à educação.

Para auxiliar no desenvolvimento da consciência fonológica, segue como sugestão uma sequência de habilidades metafonológicas, considerando o trabalho preventivo e/ou de remediação (Silva; Capellini, 2010).

Percepção dos sons

Estimular o processamento auditivo para a percepção de sons, promovendo atividades que envolvam toque do despertador, batida de porta, batidas do coração, som da mastigação, barulho do vento, miado do gato, entre outros.

Rima 

Produzir e discriminar terminações sonoras, promovendo atividades que envolvam palavras no diminutivo, músicas, figuras, identificação de rima dentro de um texto, bater palma ao ouvir palavras que rimam. Lembrando que rima envolve terminação sonora e não gráfica, portanto a rima pode ser contemplada na última letra (café/chulé), sílaba (porão/anão) ou parte da penúltima sílaba para o final (rato/gato), conforme o som melódico emitido. Assim como as palavras foca/boca não rimam.

Aliteração 

Identificar e discriminar palavras que aliteram, ou seja, palavras que iniciam com o mesmo som, não necessariamente a mesma letra (sino, cinema, cebola, salada, suco, sofá, semente, todos começam com /s/), promovendo atividades que envolvam a identificação de aliteração dentro de um texto, músicas, figuras, bater palma ao ouvir o fonema inicial/medial/final, circular o fonema inicial/medial/final, fazer agrupamento de palavras que comecem com mesmo som.

Noção de frases 

Junção de palavras ordenadas para a formação de frases por meio da leitura de textos junto com a criança, formação de frases a partir de uma figura; criação de histórias unindo frases formadas pelas crianças e pelo professor, objetos lúdicos para representar as palavras e as frases.

Consciência de palavras 

Desenvolver a consciência de que as frases são formadas por palavras, considerando que na formação de palavras é muito comum as crianças realizarem hipossegmentação (junção de duas ou mais palavras – eraumavez) ou hipersegmentação (separação além da prevista pela ortografia – con tente).

Consciência de sílaba

Identificar a sílaba inicial/medial/final, discriminar, manipular, segmentar, analisar e sintetizar.

Consciência de fonemas e grafemas

Identificar, discriminar, manipular, segmentar e reconhecer o alfabeto. Lembrando que isso compreende não só reconhecer as letras do alfabeto como também o som que as letras representam. Dos 26 grafemas de nosso alfabeto, apenas sete – p, b, t, d, f, v, k – apresentam uma relação regular direta entre fonema e grafema, todas as outras são irregulares em virtude do som emitido, com isto, na relação fonema-grafema, temos 19 consoantes, 7 vogais orais e 5 vogais nasais.

Pensando que a alfabetização deve ser gradual, independe se o trabalho começa com a menor unidade da fala (fonema) e passa para sílabas, depois às palavras, frases e, finalmente, ao texto,  ou o inverso, partindo do texto para o fonema, desde que se atinja o objetivo final: a alfabetização, que é a escrita competente e a leitura com interpretação do texto lido. Portanto, a alfabetização deve ser realizada com o ensino explícito e sistemático das correspondências fonografêmicas e com o trabalho da consciência fonológica.

 

Alessandra Aranda Nicolau

Pedagoga, Mestre em Educação pela UNESP/Marília-SP.

Assessora Pedagógica das Editoras Ática, Scipione e Saraiva na Rede Pública.

Coordena o núcleo de inclusão e formação continuada da RSP Integral e é coautora de diversos capítulos e livros na área de Educação.

 

Referências bibliográficas

ADAMS, M. J; FOORMAN, B. R.; LUNDBERG, I.; BEELER, T. Consciência fonológica em crianças pequenas. Porto Alegre: Artmed, 2005.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Alfabetização. PNA – Política Nacional de Alfabetização/Secretaria de Alfabetização. – Brasília: MEC, SEALF, 2019.

CAPOVILLA, A. G. S.; CAPOVILLA, F. C. Efeitos do treino de consciência fonológica em crianças com baixo nível sócio-econômico. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 13, n.1, p. 7-24, 2000.

MARCUSCHI, L.A. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. Marcuschi – 10.ed. – São Paulo: Cortez, 2010.

SILVA, C.; CAPELLINI, S.A. Eficácia do programa de remediação fonológica e leitura no distúrbio de aprendizagem. Pró-Fono R. Atual. Cient. 2010, vol.22, n.2, p. 131-138.

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