O gestor escolar e a reinvenção da escola

14 de julho, 2020 - Por e-docente

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Enquanto estamos em isolamento social por causa da pandemia de Covid-19, as práticas escolares estão sendo constantemente reinventadas pelos professores que precisam, de alguma maneira, fazer chegar conteúdo até os seus alunos. Quando imaginamos que as escolas estariam fechadas? Quando imaginamos que não teríamos mais nossos alunos ao alcance de um abraço? 

A questão de como entregar o conteúdo para todos, depois como receber de volta, em seguida, como dar retorno para os estudantes que ficam com dúvidas e não sabem se estão acertando ou errando está sendo respondida de diversas maneiras ao longo deste nosso grande país. Infelizmente, nem sempre com sucesso. Creio não ter resposta para as questões que citei anteriormente e penso que elas, em muitos lugares, não têm nenhuma solução a curto ou médio prazo, porque está fora das mãos dos professores e gestores desenvolver ações que diminuam esse abismo social em que vivemos. 

Por outro lado, podemos fazer muito quando compreendemos que a escola pública precisa ser democrática e inclusiva e que precisa ser um lugar de encontro e de pertencimento para esses milhares de estudantes matriculados todos os anos e que completam conosco os 200 dias letivos previstos por lei. Um dia, venceremos essa pandemia, nossas escolas serão reabertas e teremos de novo nossos alunos ao alcance do nosso abraço. Então, faremos tudo igual? Simplesmente, continuaremos de onde havíamos parado? 

No momento em que as escolas foram fechadas e ficamos todos literalmente sem o chão conhecido da escola começamos a nos reinventar. A questão é que não podemos apenas reinventar as formas de entregar o conteúdo para os alunos, mas precisamos reinventar o próprio conteúdo que entregamos e mais, a própria ideia de “entregar” um conteúdo precisa ser revista. Neste momento, os gestores escolares são de fundamental importância no processo de reflexão que devemos começar. São eles que devem agregar os professores em torno de reflexões construtivas a respeito da sua prática cotidiana e a respeito da função principal da escola que é o aprender.  

Agora é hora de mergulhar nos resultados alcançados todos os anos pela sua escola e compreender o quanto de avanço, estagnação ou retrocesso está acontecendo lá. É preciso olhar para dentro do seu espaço escolar, juntamente com os professores, e tentar compreender em que lugar essa escola está situada. Quantos alunos reprovam todos os anos? Quantos evadem? Quais são os índices que a escola alcançou nas avaliações externas? Quais projetos e que metodologias foram criadas dentro da escola para resolver essas situações? Quanto de tempo já foi dedicado a compreender por que alguns alunos não aprendem? 

Não é possível resolver os problemas da educação pública brasileira se cada um não começar na sua escola. Muitos problemas não são possíveis de serem resolvidos pelo povo da escola, mas, muitos problemas podem ser resolvidos apenas com ações metodológicas que não precisam de um centavo sequer. Cabe aos gestores escolares a tarefa de agregar o coletivo da escola na busca de soluções próprias para os problemas enfrentados, em busca de compreensão e entendimento da realidade vivida por aquela comunidade e em busca de um olhar sem culpa. 

Muitas vezes, o tempo de estudo pedagógico de uma escola se gasta procurando culpados para os problemas existentes e distribuindo sentenças para que achamos serem os culpados. O resultados disso se vê em alunos reprovados ou evadidos, professores desmotivados ou alheios e, por fim, numa escola que cultiva o fracasso. 

Se essa pandemia nos mostrou alguma coisa é que estamos atrasados para a reinvenção da escola. Estamos atrasados para implementar a gestão democrática, para incentivar a autonomia dos alunos, para cultivar a autoria de alunos e professores. Estamos atrasados para construir uma escola com professores e alunos pesquisadores, que não sejam meros repetidores de um conteúdo vazio de significado. Esse atraso estamos pagando caro agora, mas não precisamos pagar para sempre, se tivermos gestores competentes que possam ajudar a sacudir as discussões nas escolas de forma democrática e coletiva. 

 

Joice Lamb 

Formada em Letras e especialista em coordenação pedagógica pela UFRGS. Hoje é coordenadora pedagógica na rede pública municipal de Novo Hamburgo – RS

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