Gestão escolar e pandemia: novos e antigos desafios e possibilidades

21 de julho, 2020 - Por e-docente

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Ao ser convidada para refletir sobre a gestão escolar em tempos de pandemia, pensei na realidade de diversos gestores que conheço e que estão se reinventando, assim como eu e como você que está lendo. Estamos vivendo um momento único na história e certamente não temos as repostas prontas, mas temos a responsabilidade e a ousadia de descobrir um novo jeito de ser escola.   

No início do ano, temos um momento de planejamento coletivo e, neste encontro, trazemos os resultados e analisamos junto com a equipe as fragilidades e potencialidades da comunidade escolar. A partir dali, conseguimos estabelecer algumas metas. 

Depois disso, partimos para as discussões coletivas: abrimos espaço para a polifonia, buscando que todos os membros, em especial os estudantes, possam construir o plano de ação da escola. Assim, organizamos um calendário de eventos e possíveis projetos. Isso tudo feito, temos uma espinha dorsal para o ano letivo e é claro que neste processo sabemos que ao longo do ano iremos revisitar o plano de ação, realinhar metas e replanejar o que for preciso.  

Em 2020, isso não foi diferente, iniciamos o ano com nossos planejamentos, sonhos, metas e plano de açãoPorém, como vocês sabem, em março tudo mudou abruptamente e nada daquilo que estava planejado fazia sentido. Num dia, estávamos assistindo os estragos da COVID-19 na China, EUA e Europa. No outro, estávamos recebendo a notícia do fechamento da escola.  

Como assim? Fechar as escolas? Isso nunca nos passou pela cabeça.  

Uma onda de ansiedade, perguntas e medos nos atingiu. Não era mais garantir as aprendizagens, precisávamos garantir as vidas de cada um. Não tínhamos respostas para quase nada, não conhecíamos o vírus e nem sabíamos quanto tempo ficaríamos fechados.  

Em nossa escola, temos calendários grandes expostos na secretaria, na sala dos professores, na sala de atendimento educacional especializado, na coordenação pedagógica, na sala da direção e no corredor dos estudantes. Todos tinham muitos compromissos agendados, reuniões, atividades, simulados, saídas pedagógicas, entre outros, que se somavam à alegria barulhenta de nossos estudantes, a escola transbordava vida!  

De repente, silêncio. Pausa. Vazio. Álcool em gel. A vida estava suspensa no ar e nós nem sabíamos por onde começar.  

Enquanto gestora, eu tinha um milhão de compromissos inadiáveis, uma rotina frenética com fluxo de reuniões, escutas, diálogos, ações e, naqueles dias, logo que a escola foi fechada eu precisei desacelerar de uma só vez. Era preciso pensar. Isso mesmo, pensar, sentir, acolher, escutar e tentar cuidar da equipe (professores, coordenadores, merendeiras, vigilantes, secretaria) ao mesmo tempo que tínhamos que cuidar dos pais, para que todos juntos cuidássemos do que temos de mais valioso: nossos estudantes.  

E foi assim que nosso primeiro passo foi definido: reunir a equipe. Numa reunião virtual em que gastamos mais tempo descobrindo como fechar os microfones e ligar as câmeras do que propriamente conversando. Buscamos entender como cada um estava e acolhemos as angústias e ansiedades. Naquele momento, vimos que tínhamos uns aos outros e que estávamos juntos, ainda que distantes, e priorizamos a ação de manter o vínculo com nossos estudantes. 

Pensamos em mil estratégias e erramos diversas, mas a cada erro nos fortalecíamos na certeza de que não podíamos perder ninguém e que a escola nunca poderá deixar de existir. A cada reunião virtual estávamos mais potentes, rápidos e dinâmicos.  

O mundo virtual passou a ser nosso mundo real e fomos nos compreendendo neste novo espaço. Começamos a valorizar nossos momentos de encontro e íamos ficando mais à vontade. O home office é invasivo e, por isso, em pouco tempo os filhos, os animais de estimação, a decoração da casa de nossos colegas de trabalho começaram a fazer parte de nossa rotina.  

A cada encontro, reafirmávamos a nossa crença na educação como caminho de transformação social, no conhecimento como gerador de oportunidades e no estudante como sujeito de direitos.  

Neste momento de pandemia, vimos saltar aos olhos as desigualdades sociais tão historicamente arraigadas em nosso país e, enquanto algumas escolas privadas já tinham retornado às aulas com estruturas tecnológicas de comunicação, nós buscávamos garantir que todos tivessem comida na mesa e que se conscientizassem da importância do isolamento social, mesmo numa casa de um ou dois cômodos e com uma família grande. É duro enxergar que não estamos no mesmo barco, estamos  na mesma tempestade, uns com seus navios imponentes e outros com seus botes improvisados. No início, dizer para os estudantes que nós estávamos juntos de mãos dadas, ainda que essas mãos estivessem unidas virtualmente, era nossa maior prioridade.  

E foi assim que minha rotina de gestora ganhou novas ferramentas e objetivos. A Secretaria de Educação do Estado do Espírito Santo emitiu as primeiras diretrizes para a pandemia e fez uma parceria com a TV do Amazonas, fornecendo aos estudantes aulas pela TV aberta. O Governo criou a plataforma EscoLAR e, em parceria com o Google for Education, patrocinou a internet dos estudantes,  fomentando o acesso ao Google sala de aula.  

Nossa equipe continuava empenhada em enxergar o sujeito em suas múltiplas dimensões e reconhecíamos as dificuldades que nos atravessavam. Então, apoiados nas diretrizes estaduais que garantiam a autonomia da escola para reconhecer a sua realidade e propor novas formas de interação, montamos grupos de WhatsApp, um para cada turma, além do grupo com os pais dos estudantes.  

Por meio dos grupos, enviamos atividades, postamos figurinhas, mandamos áudios e nos conectamos com eles. Criamos também lives que chamamos de #pitstopcultural e com isso discutimos temas de grande relevância social, como o racismo, o empoderamento feminino, a inclusão, entre outras temáticas que se fazem necessáriasJuntos com os estudantes líderes de turmas e com a equipe, criamos gincanas que os envolvem e despertam a alegria do aprender.  

Enfim, não tem sido fácil. Mas ser gestora escolar nunca me foi fácil. E posso dizer que, em tempos de COVID-19, estamos mais próximos de nossa equipe, da comunidade e de nossos estudantes. Estamos, sim, nos reinventando mais humanos, mais gratos, mais solidários e seguimos firme com a responsabilidae de esperançar. 

É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo 

P.110-111. Paulo Freire. 2014. Pedagogia da esperança. São Paulo: Paz e Terra. 

 

Juliana Rohsner 

Pedagoga e mestre em ensino de Humanidades pelo IFES. Hoje é diretora de escola na rede estadual do ES. 

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