Formas de aproximar a família da educação

19 de novembro, 2020 - Por e-docente

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Muito se fala sobre educação, mas será que sabemos mesmo o que é educar?

Constato, sobretudo quando estou em reunião com familiares, que há uma tendência de as pessoas, em geral, acharem que a educação acontece, prioritariamente, na escola, ou ainda que, com o tempo, a pessoa aprende. Muitos familiares afirmam não terem tempo de educar e, de tão recorrente, essa declaração virou o título de um dos meus livros. Ouço ainda de muitas avós a afirmativa de que “os avós não precisam educar, pois netos são filhos com açúcar”

Outro grupo de familiares afirma que não estudou; por isso, deixam essa tarefa para as(os) professoras(es), que são bem mais preparadas. Pessoas que desenvolvem o papel de madrasta/padrasto, por exemplo, afirmam, com muita regularidade, que a criança ou o jovem não é seu filho, portanto não têm o compromisso de educar.

Parte das pessoas tende a achar que a criança, ao crescer, aprenderá naturalmente e, partindo dessa compreensão, frequentemente afirma que “trabalha o dia todo e, quando chega em casa, não quer ficar brigando com o filho”.

Temos ainda, por outro lado, professores afirmando que tal criança é mal educada, como se os professores e toda a equipe da escola não tivessem nenhum compromisso com o processo educativo de uma criança ou de um jovem, com os resultados obtidos e com sua repercussão social.

Analisando essas afirmações, a partir das quais baseamos a reflexão a que este texto se propõe, parece que educar é tarefa árdua, muitas vezes um fardo, um tempo (perdido) de vida, “coisa de gente que estudou” ou, ainda, destino dos familiares mais próximos.

O que é educar?

Educar é provocar aprendizagens e promover desenvolvimento. Um grande desafio de todas as épocas, pois os educadores têm por finalidade promover o desenvolvimento de um ser humano, com formação nas diferentes dimensões (cognitiva, afetivo-emocional, sociocultural, orgânica, corporal, ética), que construa instrumentos, que o habilite a bem viver, conviver e, também, fazer frente às exigências da sociedade contemporânea.

A aprendizagem modifica o modo de o sujeito Ser e de se relacionar com o mundo. Sentir, pensar, agir e/ou reagir, a partir do que sente e pensa. Sempre de modo singular, cada sujeito se faz humano em relação de qualidade com outros seres humanos, que lhe apresentam a cultura e que, em um clima afetivo-emocional, o socializam.

O educador é uma presença importante na vida de uma pessoa

Por não ter uma natureza mais simples como outros animais, como os pássaros, que nascem e morrem pássaros e viverão suas vidas passarinhas, o ser humano necessita da educação para inserir-se no meio humano. Portanto, o desenvolvimento de uma pessoa acontece em consonância com as aprendizagens por ela conquistada.

E quem prepara esse “ser humano”? Esse processo é desenvolvido, prioritariamente, pela família, que é a primeira escola de uma criança, pela interação com cada adulto, com quem  convive e, em uma instância maior, por toda uma sociedade.

Cada família vive um conceito do que seja família, numa multiplicidade de modos de ser família e de educar seus filhos. Esse jeito de viver em família construiu-se numa cultura, a partir de uma história coletiva e individual, de cada membro familiar, embasado em valores, virtudes e ideais. 

O cotidiano e seu fluxo, assim como a entrada de novos membros em uma família, modificam a cultura familiar, confirmando ou modificando o estilo de educação do grupo. Ou seja, cada família educará seus filhos a partir de seus valores, de suas regras e de rotinas características daquele grupo, a partir dos recursos e conhecimentos disponíveis naquele momento, com aquelas pessoas.

A escola, como grande parceira da família, educa sob outro enquadramento, tendo os mesmos objetivos, que são formar um ser humano em condições de viver com seus pares, de modo colaborativo, fraterno e apto a enfrentar a complexidade do convívio social.

Um bom modo de garantir uma educação de qualidade para uma criança é sonhar com um bom futuro para seus filhos, entendendo que serão os familiares que propiciarão, através de bons exemplos, de um ambiente carinhoso, atento a essa trajetória. Portanto, repensar o modo como se tem vivido é uma forma de garantir que a família esteja sempre viva e em desenvolvimento grupal. Difícil, né?

A vida nos solicita, muitas vezes, de modo a dificultar os nossos planos educativos. Tenho uma boa notícia para vocês, familiares: a formação de um ser humano se faz em meio aos fatos cotidianos, relacionados àquela família, naquele contexto e clima socioemocional. Se os adultos estiverem atentos e bem intencionados, poderão contornar as dificuldades que o inesperado da vida nos oferta, aproveitando para refletir sobre elas. Mas alerto: é preciso estar atento, pois a urgência do dia a dia, comumente, nos faz agir na emergência, o que nos distancia dos propósitos almejados.

Não deveríamos nos distrair do importante e acabar priorizando o urgente. O que uma pessoa precisa aprender? Tudo que a define como um ser humano, que ela seja capaz de depreender sentido e modificar, com qualidade, sua forma de viver e conviver com o mundo no qual está inserida.

Educar uma pessoa é dar a ela espaço, objetivo e subjetivo, para que possa desenvolver habilidades para gerenciar as contradições, as diferenças, os conflitos, seus afetos, suas dificuldades, seus desejos e suas possibilidades frente ao contexto em que vive.

Leia também: Família e escola – parceria agora e sempre.

Como uma família educa uma criança ou jovem?

Na partilha de um conjunto de valores, que perpassam as relações familiares, animando as ações e tomadas de decisão que esse grupo escolhe viver. A educação familiar, portanto, seria como baixar os melhores aplicativos (valores) que irão valorizar o equipamento (sujeito). Esses valores, que são raízes sustentando o ser humano em períodos de tempestades e de bons tempos, darão referência às escolhas e ao viver das pessoas.

Vale a pena destacar que:

  • crianças e jovens necessitam se apoiar em figuras de autoridade, que garantam o desenvolvimento em um clima doméstico, em que os valores e as regras sejam claros e vividos no cotidiano;
  • os espaços que favorecem o desenvolvimento da autonomia são imprescindíveis, uma vez que permitem que as crianças e jovens possam assumir compromissos pessoais e grupais e possam compreender o fluxo social e a necessidade de ler as diferentes formas de viver e de conviver. Exemplo: ter a tarefa de cuidar e dispor do lixo da casa;
  • as crianças e jovens, ao participarem ativamente do cuidado da casa e das pessoas que nela vivem (irmãos menores, idosos), desenvolvem pertencimento e individuação, pois, ao mesmo tempo que reconhecem o outro e as características de seus familiares, também percebem em si suas capacidades e características individuais. A consciência de si nasce na contradição;
  • as crianças e jovens que vivem afastadas de seus pais biológicos ou afetivos, frequentemente, tornam-se adultos com funções parentais desenvolvidas de modo confuso, não se comprometendo com a formação da criança, na medida do bom senso;
  • é preciso poupar as crianças e jovens das guerras relacionais que muitas famílias promovem. Lembro que ex-cônjuges não se tornam ex-pai ou ex-mãe e que novos relacionamentos com terceiros não deslegitimam as funções paternas ou maternas, mesmo que, eventualmente, os novos membros da família precisem também assumir ações educativas no convívio com seus enteados. Todos têm o compromisso de educar, de resguardar a família da criança, promovendo relações afetivas saudáveis;
  • a vida, sobretudo nas cidades grandes, promove o distanciamento dos vínculos da família extensa, gerando clima socioafetivo e emocional empobrecido. Quanto mais pessoas estiverem afetivamente ligadas, convivendo, melhor para todos, mais aprendizagens, mais partilhas;
  • é importantíssimo minorar o tempo de tela das crianças e jovens e melhorar o tempo de relações presenciais;
  • muitas famílias transferem seus compromissos formadores para a escola; porém, muitas escolas também transferem seus compromissos educativos para a família. Ambas são instituições formadoras, cada uma com suas peculiaridades.

Quais atividades aproximam a família do processo educativo?

Considerando esses aspectos, apresento algumas atividades que aproximam a família afetivamente do processo de educar, evidenciando-se essa dimensão do ser humano, sustenta todas as outras dimensões:

  • Na hora da refeição, ou em outra oportunidade, perguntar: você aprendeu algo hoje? O quê? Importante ouvir atentamente, fazer perguntas, comentar. Assim todos aprendem.
  • Combinar de fazer algumas tarefas domésticas juntos, a partir de quem sabe fazer bem. Exemplifico: fazer o feijão que a avó faz e todos gostam, o bolo em cuja produção a mãe é especialista ou o arroz que o pai faz como ninguém (e, associada a esta ação, pedir para a criança ensinar a acessar algum site, a ajudar a buscar ou registrar uma receita etc.); plantar temperos ou flores, ler uma bula médica, fazer horta, tirar mudas, fazer adubos, buscando por sites que orientem – objetivando valorizar o conhecimento aliado ao saber-fazer.
  • Contar histórias da família, destacando os enganos, os acertos, os momentos engraçados, os fatos tristes e os alegres, os inesquecíveis, os que viraram piada; fazer comparações dos fatos como eram e como são vistos hoje. Exemplo: quando os parentes iam todos passar as festas na casa de um deles. Contar como era a vida familiar naquela época. Relembrar quando se viajava com crianças uma no colo da outra, sem cadeirinha de segurança. Era muito divertido e apertado. Hoje não se deve mais fazer assim, já que sabemos que, apesar de serem caras, elas salvam vidas.
  • Ver filmes juntos e comentarem as atitudes, a compreensão do que aconteceu no filme, ou seja, as consequências de determinada atitude: o que você faria nessa situação? Por que você acha que aconteceu isso com o personagem? Essa atividade amplia o olhar de todos, além de ser revelador do entendimento de cada um e da necessidade de reforçar algum valor;
  • Arrumar espaços para conversar sobre as emoções que algumas situações geram em cada um. Isso pode acontecer durante atividades domésticas (quando a louça está sendo lavada, a casa sendo arrumada, a refeição, produzida etc.), quando são realizadas de modo coletivo. Essas rotinas criam responsabilidade e valores individuais.
  • Se frequentam alguma igreja ou espaço análogo, conversarem sobre o que o padre, pastor, ministro ou similar falou e a compreensão que tiveram.
  • Discutir os assuntos polêmicos que aparecem nos programas de TV que a família costuma ver.
  • Incentivar os estudos escolares por meio do relato de situações que valorizem o conhecimento, os estudos, o processo de aprender, como alguma história que modificou a vida de alguém conhecido do grupo familiar, a partir dos estudos.

Essas atitudes parecem simples, mas a repercussão delas são profundas.

Conclusão

Ao longo da pandemia, entre 30% e 40% dos alunos não conseguiram acessar a escola por inúmeros motivos: políticas públicas, questões econômicas, cultura de desvalorização da escolarização e do conhecimento científico, todos eles muito importantes. Porém, um dos motivos tem sido também a importância que o núcleo familiar dá ao processo de aprender, do pensar respaldado por teóricos, de entrar no mundo do conhecimento, enfim, ao processo de educação, que está relacionado ao grupo de motivos que promove essa lamentável e indesejável exclusão.

O conhecimento que a escola busca promover faz falta. As bases das aprendizagens estão numa pessoa motivada para aprender, entendendo o papel da aprendizagem em sua vida e, sobretudo, valorizando o acesso ao conhecimento científico, construído na sociedade acadêmica, principalmente. Não se pode aceitar que uma criança não aprenda a ler, calcular, entender as ciências, que explicam a sociedade na qual estamos inseridos. Não se pode normalizar o fato de que um jovem tenha práticas discriminativas frente ao diferente de si. É estarrecedor ter acesso a textos que demonstrem que alguém ainda possa acreditar que a terra é plana, ou outros fatos antigos, que a ciência já comprovou serem equivocados, exaustivamente.

A educação que a família desenvolve faz falta. As bases das aprendizagens estão na possibilidade de o sujeito autorizar-se a aprender – autoestima; na capacidade que desenvolveu para suportar estresse ou o trabalho de aprender – resiliência; na possibilidade de autorregular-se frente ao que precisa aprender – autonomia; na possibilidade de ter bons motivos para investir em sua formação pessoal – pertença, responsabilidade, compromisso com seu núcleo familiar.

Educar exige intencionalidade, domínio de si mesmo. Mesmo que os familiares não se sintam preparados para essa tarefa, começá-la, através da prática do bem comum, vai gerar sabedoria para todos. Modo de preservar o ser humano, na plenitude de sua condição, nada tem em comum com informação, mas com valores, virtudes e sabedoria. Dar o melhor que pode ao filho/a permitirá que seja criado um referencial, que será utilizado para fazer as escolhas que a vida nos exige.

Destaco como importante o fato de as crianças e jovens perceberem-se vivendo entre pessoas que estão aprendendo e ensinando, que têm a motivação para serem educadoras, que procuram, juntas, aprender a bem viver e a bem conviver, sob a luz do conhecimento.

Uma pessoa bem educada dará respostas às dificuldades da vida com mais sabedoria. Aprendeu a gerar ideias próprias, não será um imitador, não se tornará facilmente influenciável e, sobretudo, saberá distinguir e procurar o conhecimento que o ajude a formar-se para a vida contemporânea.

Deixar uma criança ou jovem distante do movimento da formação humana de qualidade coloca em risco o ser humano que se quer formar e a possibilidade de produzirmos uma sociedade que seja mais equânime e fraterna.

 

Isabel Parolim

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