Desafios da pandemia: novos processos educativos envolvendo o corpo, o movimento e jogos

27 de agosto, 2020 - Por e-docente

Compartilhar

A pandemia como ponto de inflexão

Há pouco tempo, quem pensasse no ano de 2020 não poderia imaginar o cenário encontrado. Seria ano de Jogos Olímpicos (no Japão, adiado para 2021), inúmeros planejamentos estavam previstos e tiveram que ser reformulados, assim como eventos, encontros, aulas, debates. Muita coisa mudou e a educação foi muito sensível a essas transformações, sendo fortemente impactada pela pandemia decorrente da contaminação pela Covid-19.

Esse contexto adverso trouxe novas formas de se pensar a escola e o espaço educativo, bem como culminou em inúmeros desafios para alunos, professores, pais e responsáveis, organizadores de políticas públicas e a sociedade de modo geral. Pensar o corpo e o movimento, nesse cenário, passou a ser de suma importância, tendo em vista sua centralidade nessa conjuntura.

Como mitigar possíveis defasagens do corpo e do movimento decorrentes do distanciamento social, bem como refletir sobre os desafios do cenário pós-pandemia dentro da escola é nossa proposta com as reflexões deste texto.

O corpo na quarentena: desafios para o desenvolvimento humano

O grande professor Rubem Alves, em um de seus textos, apresenta o seguinte aforismo: Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas.

De certa forma, o processo educativo tradicional negligencia o corpo (quieto, sentado) e considera como de menor importância componentes curriculares que mobilizam o corpo por meio do movimento ou das expressões artísticas, tais como a Educação Física e a Arte. Assim, a escola se apresenta, muitas vezes, como gaiola, com poucas possibilidades de permitir o alçar de voos através da liberdade e da construção da autonomia.

No contexto da pandemia, as próprias casas também podem ter se transformado em gaiolas, afinal, parques, praças e outros locais de convivência e de lazer foram fechados, limitando o acesso e as experiências corporais das pessoas. Esses espaços, assim como a escola, são “territórios de aprendizagem”, pois possibilitam nos expressar e nos movimentar, isto é, “construir asas”.

Assim, o corpo na quarenta acabou ficando ali, esquecido, negligenciado por meio de uma série de dificuldades decorrentes do isolamento social e da falta de possibilidades de interação e expressão corporal.

Por outro lado, vimos eclodir movimentos de ‘lives’ em redes sociais e todo um arsenal de influenciadores que procuraram intensificar propostas de se movimentar em casa. Em que pesem as iniciativas e suas intenções positivas, muitas vezes esse processo permitiu apenas que se agravasse a desigualdade social e a falta de acesso de parte expressiva de alunos e alunas, trazendo contornos de agravo para a problemática da manutenção das aulas, mesmo estas sendo  mediadas em ambientes virtuais.  

Jogos e brincadeiras: o lúdico como território de aprendizagem

Nesse contexto, muitos professores tiveram que adaptar suas estratégias e formas de desenvolver suas práticas. Os jogos emergiram como uma das iniciativas mais empregadas em uma série de contextos (sejam virtuais, sejam em atividades impressas com apostilas, por exemplo).

Leia também: Dicas para criar uma aprendizagem baseada em jogos.

Contudo, ainda existem algumas incompreensões sobre essas práticas, que ficam, muitas vezes, restritas a uma visão utilitarista que apenas as “utilizam” como forma de mediar o ensino de outros conteúdos. Atualmente, têm se intensificado as propostas de “gamificação” do ensino, sem mesmo entender os potenciais, as possibilidades, os sentidos e os significados dos jogos na escola.

Outro exemplo são as atividades propostas de forma descontextualizada, apenas para levar “diversão” aos alunos (ou para “passar o tempo”), sem se preocupar com as aprendizagens decorrentes do processo.

Por meio da cultura lúdica, podemos nos envolver com as atividades e, a partir disso, experienciar novas formas de se desenvolver. As atividades lúdicas deveriam ser o fundamento do processo educativo, desde que se tenha clareza das aprendizagens que podem decorrer desse processo e do papel de mediação do professor.

Assim, podemos compreender os jogos e brincadeiras tanto como conteúdos de ensino, quanto como estratégia didática. Como conteúdo, assegurado pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), por exemplo, temos uma série de possibilidades de se ensinar jogos do Brasil e do mundo para os alunos, reconhecendo essas práticas como manifestações históricas fundamentais da humanidade (caso da tematização relacionada ao componente curricular da Educação Física).

Como estratégia didática, podemos usar o jogo como um recurso para se ensinar conteúdos de outros componentes (por exemplo: um jogo para se ensinar matemática). Em ambas as formas (conteúdo ou estratégia de ensino) a importância da aprendizagem contextualizada e da vivência lúdica deve ser a base do processo.

Possibilidades de transformação no processo educativo no distanciamento social

“Engaiolados” momentaneamente, o que nos resta fazer? Paulo Freire nos dá algumas pistas interessantes ao propor a ideia de “inédito viável”. Temos um momento único para pensar formas inéditas de construir o processo educativo que sejam possíveis nas condições que temos.

Com relação aos jogos e brincadeiras e às possibilidades de se refletir sobre o corpo e sobre o desenvolvimento de gestos corporais (que é o movimento com significado), podemos considerar, dentre inúmeras outras alternativas:

  1. Resgate histórico e relação intergeracional:
    Pesquisas e interação dos alunos com seus familiares e trocas de experiências de jogos antigos e atuais, conexão da relação familiar através de jogos e brincadeiras, etc.
  2. Adaptação:
    Adaptar materiais, espaços, tempos e, quando possível, o próprio movimento e a interação. Propor possibilidades de adaptação para que os alunos possam desenvolver algumas experiências corporais, ainda que limitadas nos espaços e recursos disponíveis.
  3. Co-criação:
    Estimular iniciativas para a criação de gestos e de movimentos, que explorem, tendo em vista o cenário atual, espaços e territórios no interior das residências, desenvolvendo a autonomia dos estudantes. Os jogos permitem o desenvolvimento da criatividade.
  4. Expressão e sensibilidade: 
    Explorar movimentos realizados individualmente, gestos ginásticos, passos de dança e atividades de ritmo individuais, yoga, meditação, entre outros. Há uma amplitude de possibilidades para que os alunos encontrem formas de se movimentar, começando por si mesmos, compreendendo o movimento cardíaco, a respiração, a postura, entre muitos outros.
  5. Desenvolver a educação integral:
    Aproveitar o momento para prestar atenção nas emoções, nos sentimentos e nas sensações oriundos da pandemia. Incentivar a expressão e a comunicação: escrita de diários, realização de desenhos, registros (virtuais ou não), entre outros, incentivando a educação integral (desenvolvimento dos alunos como um todo).

A pandemia vai passar e, com ela, temos a possibilidade única de descobrir outros “inéditos viáveis” para a escola. Que possamos fomentar a criação de escolas que sejam asas e que, enquanto estivermos nas “gaiolas”, aprendamos a nos conectar ao lúdico e continuarmos a viver!

 

Luiz Gustavo Bonatto Rufino

Graduado em Educação Física (bacharelado e licenciatura) e em Pedagogia. Mestre em Desenvolvimento Humano e Tecnologias e Doutor em Ciências da Motricidade pela Unesp Rio Claro. Possui experiência profissional na docência em todos os níveis de ensino, bem como em processos de formação inicial e continuada, produção de livros e outros materiais didáticos e assessorias pedagógicas/educativas. Atua nas redes públicas municipais de Paulínia – SP e Campinas – SP e no Centro Universitário de Jaguariúna (Unifaj). Em 2019, foi Vencedor do Prêmio Educador Nota 10.

Compartilhar


Deixe seu comentário