Como nosso cérebro aprende: neurociência, aprendizagem e BNCC

03 de setembro, 2020 - Por e-docente

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A neurociência pode contribuir de inúmeras formas para a educação. Conhecer e entender o processo de aprendizagem tornou-se um grande desafio para os educadores. Desvendar os estudos dos cérebros, na sala de aula, pode contribuir para uma educação mais justa e menos excludente, pois assim o educador tem a possibilidade de compreender melhor como ensinar, uma vez existem diferentes maneiras de aprender.

A capacidade de aprendizado

Uma questão que nos ajuda a compreender melhor a respeito da aprendizagem é saber que a capacidade de criar conexões entre os neurônios está presente em toda a vida. Assim, todos os alunos são capazes de aprender algo novo, todo dia. Hoje, temos um documento que versa sobre o desenvolvimento integral dos alunos. Há a necessidade de compreender onde e como ocorre todo esse processo de desenvolvimento, para que os objetivos de ensino sejam alcançados.

Para todos os comprometidos com o processo educativo, estimular e aprender é ação e reação. O educador, ao estabelecer em seus planejamentos as estratégias de ensino, deve sensibilizar-se para o fato de que os educandos são constituídos de uma biologia cerebral e que, portanto,  é preciso considerar o seu funcionamento e suas interfaces no desenvolvimento das inteligências e da aprendizagem. 

A BNCC neste contexto

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento que traz as competências, as habilidades e as aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver durante cada etapa da Educação Básica. 

Ela define competência como “a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho”.

Além disso, traz uma nova forma de entender o ensino e a aprendizagem, possibilitando repensar o processo educativo e construir uma nova educação pautada neste cérebro que aprende e precisa desenvolver-se integralmente.

Como a aprendizagem acontece

Ensinar a uma pessoa uma habilidade nova implica maximizar o potencial de funcionamento do seu cérebro. Isso porque aprender exige necessariamente planejar novas maneiras de solucionar desafios, realizando atividades que estimulem diferentes áreas cerebrais a trabalhar com capacidade máxima de eficiência.

No livro Neurociência e Educação (2009), Ramon Cosenza e Leonor Guerra explicam que plasticidade cerebral é a capacidade que o cérebro tem de fazer e desfazer ligações entre os neurônios. Essas ligações constantes entre os neurônios, na prática, vão permitir o aprendizado e, consequentemente, o desenvolvimento das habilidades e das competências que determinam a BNCC.

A experiência e as informações que chegam ao sistema nervoso central, na forma de estímulos sensoriais, afetam o cérebro que, por sua vez, se beneficia positivamente – o que aprendemos age em nível celular, impondo novos padrões de organização do cérebro.

Assim acontece a aprendizagem, criando memórias de longa duração. Além disso, a aprendizagem ocorre quando conseguimos resgatar essa memória e aplicá-la de forma inovadora e criativa na resolução de problemas, aliando os estudos à vivência, à imaginação, com aulas que devem ser emolduradas pela emoção, pois quando as aulas têm significados para a vida e vêm pelo caminho da emoção, jamais serão esquecidas.

Quanto mais o educador combinar estratégias e estímulos, maiores são as chances de garantir um aprendizado de longo prazo. Segundo a neurociência, aprender modifica o cérebro. O aluno em sala de aula é um “sujeito cerebral”, um estudante que argumenta, questiona e tem autonomia em aprender.

Para Marta Relvas (2012), o papel do professor é provocar desafios, promover ações reflexivas e permitir o diálogo entre emoções e afetos em um corpo orgânico e mental. Aprendizagem envolve um processo de informações, isto é, processos sensoriais, neurológicos, psicomotores e psicológicos. Uma mistura complexa de diferentes elementos: emocionais, culturais, biológicos e pedagógicos.

Funções Executivas

Planejar, realizar uma tarefa, investigar, resolver problemas, trilhar caminhos para resolver problemas, observar atentamente, perguntar, criar hipóteses, testar, problematizar, realizar uma tarefa, atingir um objetivo são habilidades citadas na BNCC e fazem parte de um funcionamento cognitivo, sendo coordenadas pela parte frontal do cérebro, mais precisamente, o córtex pré-frontal, que chamamos de Funções Executivas.

Tais funções são responsáveis pelo planejamento, tomadas de decisão, monitoramento, manipulação e execução de uma tarefa, possibilitando ao indivíduo encontrar respostas para um problema a partir de conhecimentos e experiências armazenadas na memória. Afinal, o que o cérebro faz melhor é aprender: sua função é otimizar comportamentos, usando informações recebidas com eficiência.

Para aprofundarmos um pouco mais, as Funções Executivas são compostas pelo controle inibitório, que vai controlar os indivíduos a trabalharem em equipe, mantendo o foco, controlando os comportamentos impulsivos. A respeito do controle das emoções, como definição mais pedagógica, podemos acrescentar que a emoção é um impulso neurobiológico que impele o organismo para a ação, assim como o pensamento diante de desafios.

Flexibilidade Cognitiva e Memória de Trabalho

Temos também a chamada de Flexibilidade Cognitiva, que favorece a autonomia e a capacidade do indivíduo em ter iniciativas, ser criativo, permitindo que ele considere diferentes pontos de vista. Dessa forma, a experiência vai moldando o cérebro, ao longo do processo de aprendizagem, criando memórias, reprogramando e armazenando informações, estabelecendo prioridades, planejando e organizando. Todo esse processo se dá com o que chamamos de Memória de Trabalho.

É preciso impulsionar o desenvolvimento das Funções Executivas. A neurociência não é uma “receita de brigadeiro”, mas ensina a olhar e a adaptar estratégias diferenciadas para atingir determinados  objetivos, por meio do ensino de metodologias ativas. Para tanto, é necessário tirar alunos e professores da zona de conforto.

Esse campo do saber comunga com muitas práticas já utilizadas, pois sugere que em qualquer sala de aula possamos usar múltiplas estratégias, estímulos visuais, auditivos, táteis, olfativos, senso de humor, afetividade. Quanto mais diversidade de estratégias, maior a certeza de que o conteúdo chegará à memória de longa duração.

Nesse sentido, quanto mais variados forem os estímulos visual, auditivo, motor, emocional, mais redes de neurônios trabalharão juntas, fortalecendo as conexões e consolidando o aprendizado.

Confira também um guia completo para a criação e execução de uma sequência didática.

 

Caroline Leão

Pedagoga, especialista em educação especial

Neuropsicopedagoga Clínica e Institucional

MBA em Gestão de Pessoas e Sustentabilidade

Assessora Pedagógica da Saber (Ática, Scipione e Saraiva)

 

Referências bibliográficas

COSENZA, Ramon e GUERRA, Leonor. Neurociência e Educação. Porto Alegre: Artmed Editora, 2009

DIAMOND, A; LEE, K. Interventions Shown To Aid Executive Function Development In Children 4 to 12 yars old: Science, 2011

JOHNSON, Mark H; HAAN, Michelle. Developmental Cognitive Neurosciente (Neurociência Cognitiva do Desenvolvimento, em tradução livre), Malden, MA: Wiley Blackwell, 2015

RELVAS, Marta Pires. Neurociência e Educação: potencialidades dos gêneros humanos na sala de aula. 3. Ed. Rio De Janeiro: Wak Editora, 2018

RELVAS, Marta Pires. Neurociências na Prática Pedagógica. Rio De Janeiro: Wak Editora, 2012

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